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Breve apresentação

A Associação Vale de Acór é uma Instituição Particular de Solidariedade Social, sem fins lucrativos, que trabalha desde 1994 no âmbito da recuperação de dependentes.
No Vale de Acór acolhemos e reinserimos os "novos pobres" da nossa sociedade - pessoas sem comunidade que são colocadas face à impotência ou falência de si mesmas e, por isso mesmo, incapazes de activar os seus recursos pessoais para reagir de um modo construtivo:

Toxicodependentes e alcoólicos
Toxicodependentes com problemas psiquiátricos (Duplo Diagnóstico)
Toxicodependentes reclusos e ex-reclusos

Testemunhos

Caros Amigos

Trabalho num escritório de advogados. Sou amiga do Vale de Acór há muitos anos. É um gosto ir àquela casa. Sinto que as pessoas de lá são amigos próximos, para além das meras afinidades habituais.

Depois, é um sítio bonito, cuidado, onde apetece estar. Na verdade, nunca me senti longe daqueles rapazes e raparigas, pois podia ser eu, a minha história.

No Vale de Acór uma das coisas que mais me marca é a Festa de Graduaçõess.É a festa dos que acabam o percurso terapêutico-educativo. Assisti a duas ou três e foi a coisa mais parecida que vi com o que imagino ser "chegar ao céu". Ver as famílias, os amigos que esperaram, sabe-se lá quantos anos, para que aquele rapaz, primeiro aceitasse tratar-se, depois aceitasse permanecer no programa, vê-lo cair e retomar, tantos deles vezes sem conta. E agora “a festa” chegou! Acabou o programa, pode recomeçar a "viver". É comovente, e dá-me imensa esperança para recomeçar eu também, no meu dia a dia.

Quando uma vez no escritório falávamos sobre onde iríaamos fazer o Jantar de Natal, pois sendo um Jantar de Natal, não queriamos que fosse a "típica festa de empresa", sempre igual, veio-me ao coracão o Vale de Acór. Era um sítio bonito, com gente amiga, com os rapazes que nos podiam dar muito, e nós também, talvez, qualquer coisa a eles. Então propusemos-lhes fazer o nosso Jantar de Natal com eles. Não "na instituição deles", mas com eles, rapazes e raparigas em tratamento e respectivos colaboradores da casa. O nosso jantar seria também o deles. Aceitaram com uma condição: eles faziam o jantar e tratavam de tudo. Foi quando nos lembrámos de oferecer-lhes (e a nós!) um concerto de Natal. Um dos nossos sócios é casado com uma pianista que convidou um amigo violinista e um violoncelista, (com uma carreira internacional e renome). E assim inaugurámos o primeiro jantar de Natal com uma magnífica sonata de Schubert (opus 100), seguida de um maravilhoso jantar num ambiente acolhedor e Natalício. Todos gostámos imenso. Incluindo os músicos que diziam: “gostámos tanto de tocar aqui, aqui ouvem-nos com o coração". Há cinco anos que se repete este jantar, não porque "se repete" mas porque ninguém ainda encontrou um sítio ou um programa que "apetecesse mais fazer". Os próprios músicos, num ano em que fizemos o concerto fora, por razões de angariação de fundos, pediram-nos para ir ao Vale de Acór tocar, porque "lá é outra coisa"!

Desta aventura do Jantar de Natal juntos, nasceu outra. Devido aos cortes orçamentais que deixaram a Associação na iminência de fechar, “pensámos: porque não fazemos o concerto fora do Vale de Acór e vendemos os bilhetes para ajudar no fundraising?” E assim, juntamente com várias entidades que se associaram, começou a aventura das "Grandes Galas de Solidariedade", que temos feito há três anos e que esperamos repetir este ano.

E assim tem sido. O que temos conseguido, é como uma gota de água no oceano, mas nós sentimos a exigência de ajudar o Vale de Acór porque com o tempo, já é uma coisa também nossa, que faz parte de nós.

A nós, advogados, o Vale de Acór aproxima-nos de uma parte da sociedade que tantas vezes não aparece pela sua humanidade e beleza mas por razões bem piores. Espero que estes rapazes e raparigas em recuperação também levem algo de nós.

Na história da nossa relação com o Vale de Acór surgiram também parcerias de reintegração de alguns rapazes no mercado de trabalho. Parcerias estas que a nosso ver são histórias de sucesso.

Esta é a minha história de relação com o Vale de Acór. Invista também na sua!

Amiga e Voluntária - 2013

Caros amigos

A história que tenho para vos contar tem como objectivo despertar consciências e abrir os corações para a realidade. Nada tem a ver com números ou estatísticas e nem sequer é de caracter informativo. Esta história visa, antes de tudo, as pessoas: os pobres e aqueles que trabalham para os salvar; aqueles que acompanham o dia-a-dia dos que nada têm e lhes trazem esperança, contribuindo para que se testemunhem verdadeiros milagres na vida dos que por aqui passam.

Tenho 45 anos, sou casado, tenho 4 filhos, sou empresário e fui um destes pobres que estamos habituados a ver nos parques de estacionamento, à espera que “caiam” os primeiros trocos para mais uma dose. Digo “fui pobre” porque não há dinheiro nenhum que pague a riqueza do que tenho hoje e que em tudo se deve ao encontro que fiz em Janeiro de 2001 com a Associação Vale de Acór, numa altura em que nada mais tinha a perder. Na verdade, o Vale de Acór foi mesmo a porta de esperança que me abriu novos caminhos para a vida.

Aprendi aqui, com estas pessoas, o auto-conhecimento, a relacionar-me com os outros, a reconstruir as relações familiares, a encontrar soluções para os problemas do dia à dia, enfim, aprendi uma forma totalmente renovada de enfrentar a vida sem a necessidade de adictivos (álcool, drogas, etc.), que me deu a segurança e a confiança necessária para construir tudo o que tenho hoje.

Passados 20 meses de programa, comecei a trabalhar e pude começar assim a pagar as dívidas que tinha acumulado ao longo de 15 anos, créditos, fianças, empréstimos pessoais, entre outros. Demorei 4 anos a pagar tudo, ao mesmo tempo que pagava também algumas “dívidas morais”; os meus pais que tanto tinham sofrido, podiam finalmente sentir-se ajudados por mim, (que milagre!).

Pude reatar a relação com as minhas duas filhas, fruto de duas relações fortuitas num período muito negativo da minha vida. A mais velha, visitava-me quando ainda estava na comunidade, e a mais nova, que vive com a mãe no estrangeiro, viria eu a visitá-la durante o período de reinserção, e mais tarde começou ela a vir a Portugal regularmente nas férias.

Com o Vale de Acór tornei-me cristão e fui baptizado aos 34 anos de idade. Com a segurança necessária e a vida encaminhada, fui graduado (final do programa terapêutico) a 4 de Março de 2004.

Como Deus não se esgota em generosidade, pouco tempo depois, aconteceu o que há muito desejava: conheci a mulher da minha vida, com quem pude construir a minha própria família. Casei e tive 2 filhos, sendo que o mais pequenino é autista. O que poderia ter sido para nós um drama, tem sido uma Graça nas nossas vidas. Hoje com apenas 4 anos, o nosso filho ensina-nos muito: na perseverança, na paciência, na caridade, na esperança, enfim, o Amor. Ele é o elo mais forte que nos liga à vida. Nunca deixei de ir “beber água” a este Vale de Esperança que me devolveu à vida e onde mantenho os amigos, os padrinhos, os conselheiros e todos aqueles de quem preciso para me lembrar de onde vim, onde estou e para onde desejo ir.

Embora seja mais cómoda a “discrição”, conto a minha história porque é urgente acreditar que é possível a mudança e a recuperação. Mas sozinhos não somos capazes. É preciso ajuda. Ajuda de quem o saiba fazer com profissionalismo e dedicação, mas sobretudo com amor. E é assim que se trabalha no Vale de Acór.

O Vale de Acór precisa do seu apoio. Ajude-o a ajudar quem mais precisa!

Obrigado.

Ex-utente - 2012

Nasci no dia 8 de Setembro de 1961. Tenho hoje 47 anos. Cerca de 18 anos da minha vida, quase metade, foram vividos na prisão.

Apanhei a primeira bebedeira com 7 anos. Com 10 anos bebia regularmente. Comecei a consumir drogas com 14 anos. Com 17 estava agarrado às drogas duras.

Abril 1978, 16 anos, Espanha. Fui preso pela 1ª vez. Falta de documentos e posse de haxixe. Condenado a 6 meses. Cumpri pena no Cárcere Modelo de Barcelona. Quando saí fui expulso do pais com poibição de entrar durante 10 anos.

Agosto 79, 17 anos, Lisboa. Preso pela 2ª vez. Furto. Condenado a 2 anos de prisão. Cumpri no EPL e Linhó. Verão 1982, 21 anos, Algarve. Preso pela 3ª vez. Furto. Condenado a 4 anos. Cumpri em Faro, Beja, Pinheiro da Cruz, Setúbal, Linhó. Transferido sempre por mau comportamento. Saí em 1985.

1987, 26 anos, Lisboa. Preso pela 4ª vez. Tráfico de droga. Condenado a 6 anos. Cumpri no EPL e Vale de Judeus. Julgado em 1989 por um processo pendente também de tráfico. Condenado a mais 7 anos. Beneficiei de dois perdões (1 sexto da pena) dados pelo Papa João Paulo II e pelo Presidente da República Jorge Sampaio. Saí de precária por uma semana e não voltei. Fui apanhado pela Judiciária 1 mês e 29 dias depois. Passei 22 dias nos calabouços da Judiciária para averiguação de um crime que cometi na véspera de sair de Precária (agressão a outro recluso com arma branca, 7 golpes). Fui transferido de Vale de Judeus para o Linhó. Passei em artigo 111º - medidas de segurança - 6 meses, alternando 1 mês de solitária com 1 mês na ala de segurança. Saí no Verão de 1998, com 37 anos.

Setembro 2002, 41 anos. Preso pela 5ª vez. Homicídio. Consegui que me condenassem apenas por homicídio por negligência, a 3 anos de pena suspensa, dos quais cumpri 14 meses no EPL. Saí em Novembro de 2003 e foi aconselhado pelo juiz a ir para um centro de recuperação da toxicodependência. Fiquei 2 meses no centro. Abandonei e tive uma recaída imediata. Fevereiro de 2004, 43 anos. Preso pela 6ª vez. Arrombamento. Estive preventivo em Setúbal 4 meses, de onde saí, transportado num carro celular, para a Comunidade Terapêutica da Associação Vale de Acór.

Durante todo o tempo que estive preso nunca deixei de beber e consumir droga. Estar preso nunca foi para mim um castigo. Da mesma maneira que sobrevivia na rua, sobrevivi na cadeia: traficava e transportava droga de umas alas para as outras, vivia de esquemas para conseguir o que queria. Estava no Linhó quando um conhecido mafioso italiano , apanhado no Algarve, foi preso. Sempre o tratei por tu e fiz-lhe muitos “favores”

Aceitei ir para o Vale de Acór apenas para fugir à Prisão. Nunca pensei ser possível sair do mundo do crime. Estava à espera da oportunidade de dar o golpe da minha vida.

Passei 15 meses na Comunidade Terapêutica, mas só por volta do 8º mês comecei o meu processo de mudança. Estava saturado da vida que levava. Comecei a confiar no meu terapeuta e a estabelecer objectivos com sentido para a minha vida. Foi também extremamente importante o apoio da minha família em todo este processo. Posteriormente, na fase de Reinserção Social, comecei a assumir, com seriedade, o desejo de ser Cristão. Estou inserido num movimento da Igreja Católica, o que me ajudou e continua a ajudar muito. Estou a descobrir que Jesus me ama como sou.

Acabei o programa terapêutico-educativo da Associação Vale de Acór no dia 8 de Março de 2006. Trabalho como canalizador e quero reconstruir a minha vida com o meu salário, honesto. Não estou preocupado em como arranjar droga para o dia seguinte. Tenho amigos. Verdadeiros. São eles o meu apoio nas alturas mais difíceis.

Hoje, tenho a sensação de ter começado tudo de novo. Cansei-me de dormir com um olho aberto e outro fechado. Considero-me um Homem Livre, porque posso ser quem sou, sem ter necessidade de fazer o papel de outro; posso mostrar a minha fragilidade, sem que isso me faça perder a dignidade.

Aos 44 anos comecei a viver uma nova vida; uma vida com Sentido. E durmo descansado.

Ex-utente - 2012

“Um vale é muito mais que um nicho esgravatado na terra. Assim afundado nessa paliçada de pedra, o homem pode descobrir essa outra defesa que é ter raízes no céu, mais que na rocha. Estendido no colo do chão, o homem vê-se levantado para lá do pó de si.

Com diria o nosso Xavier: “Para Deus sobe-se descendo”.

Obrigado por nos terem dado descer tão alto, nesse Vale onde as raízes roçam Deus.”

Comunidade do Noviciado dos Jesuítas - 2009